O púlpito

James Madison ia todos os domingos ao Hyde Park com sua caminhonete inglesa legítima, uma verdadeira Land Rover, 1993, comprada antes dos alemães, americanos e indianos se adonarem daquele ícone inglês.

Seu hobby era chegar cedo, estacionar em frente à Grande Sinagoga de West End, ali na charmosa ruazinha curva que homenageia Raoul Wallenberg.

Ele abria a caminhonete, tirava um carrinho de duas rodas, daqueles de transportar caixas, pedia ajuda para alguém que estivesse passando e colocava sobre o carrinho, ajudado pelo estranho, seu púlpito de mogno escuro.

Agradecia e dirigia-se até a Speaker’s Corner mais uma vez, onde instalava o púlpito próximo do banco que gostava porque batia sol.

Colocava o carrinho sob o banco, sentava e esperava os mesmos caras de sempre. Chegava um, depois outro. Até o final do dia, quando James recolhia seu material e voltava para casa, dezenas de londrinos subiam, postavam-se no púlpito e diziam o que tinham para dizer. Aquilo era tradição.

Um dia, num domingo como aquele, ele estava intrigado com o que alguém falava ali do seu púlpito. Levantou do banco, dirigiu-se ao jovem que apresentava sua visão de mundo e disse, calmamente, caia fora da minha propriedade.

O rapaz disse, mas eu estou defendendo o direito de propriedade, o que inclui o seu direito de propriedade. James Madison olhou para o rapaz bem nos olhos e disse, eu sei. É por isso que eu quero que você se retire agora.

Não entendi disse o rapaz. James Madison completou, eu estou te dizendo para sair para ver se tu defende a tua causa com convicção ou só da boca para fora.

O jovem recolheu seus panfletos, agradeceu e sumiu pelo parque. James Madison acompanhou o jovem com o olhar e sorriu, sabia que dali, de seu púlpito, acabará de descer um homem íntegro.

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