Liberdade ainda que tardia

Roberto Rachewsky e William Ling

V Fórum Liberdade e Democracia

Belo Horizonte, 8 de setembro de 2014
Prêmio Liberdade Empresarial – William Ling
Discurso de agradecimento

Agradeço, honrado, a distinção do Prêmio Liberdade Empresarial.

Fico feliz por recebê-lo na terra dos inconfidentes, mártires da luta pela liberdade.

Liberdade ainda que tardia. Não por acaso o lema é tão atual.

Após 225 anos, ainda não somos um povo livre.

Tiradentes foi enforcado por lutar contra a derrama pela arrecadação do quinto.

Hoje os dois quintos de tributos, somados ao imposto inflacionário, equivalem à metade do fruto do trabalho do povo brasileiro confiscada pelo Estado, um dos mais corruptos do mundo segundo a Transparência Internacional.

Somos escravos da ignorância e da violência: são mais de 110 mil mortes por ano por homicídios e na guerra do trânsito. 110 países tem imprensa mais livre que a nossa. 113 tem economia mais livre que a nossa.

Quando pedimos menor intrusão do Estado na nossas vidas, e mais poder para os indivíduos, somos duramente atacados.

Roberto Rachewsky, que comigo fundou o Instituto de Estudos Empresariais há exatos 30 anos, diz que não poderia ser outra coisa que não liberal, porque seus pais o ensinaram que não era correto bater nos coleguinhas e nem se apoderar de seus brinquedos, sem o consentimento deles.

Não matarás. Não roubarás. Trate os outros como queres ser tratado.

O processo civilizatório iniciou quando a humanidade adotou esses princípios que são a essência do pensamento liberal.

Acho que também me tornei liberal ainda criança. Os relatos dos meus pais sobre a China me fascinavam.

Eles tiveram a lucidez e a sorte de abandonarem o país onde nasceram quando Mao e seus camaradas tomaram o poder.

Não entendia como tanta gente conseguia viver sob permanente vigilância e censura, sem poder falar o que pensa nem sair de suas cidades.

Os chineses eram proibidos de exercerem suas profissões sem prévio consentimento do Partido, dono de tudo e de todos.

Ouvia incrédulo as histórias de filhos que eram estimulados a delatar seus pais às guardas vermelhas, e de alunos que eram convidados a agredir e humilhar seus professores, no auge da Revolução Cultural.

Muito cedo aprendi que a forma mais poderosa de manipulação das mentes e do comportamento do povo pelo Estado, era o controle e aparelhamento das escolas.

Não compreendia ainda o conceito de liberdade mas já era claro para mim o significado de opressão.

Na universidade, na década de 70, já preparando-me para a atividade empresarial da minha família, a leitura de Raymundo Faoro me mostrou como o parasitário estamento burocrático perpetuava os vícios, aprofundava as diferenças sociais, e existia para se auto-alimentar e crescer à custa do restante da sociedade.

Ao assumir responsabilidades crescentes na empresa, dei-me conta que empreender no Brasil era uma tarefa inglória.

Nossa energia era despendida para lidar com questões que podiam inviabilizar nossos negócios mas que não se relacionavam com temas como estratégia, gestão, produtividade, e inovação: eram decretos-leis feitos na calada da noite, a burocracia e regulamentação sufocantes, a carga tributária crescente.

Os mercados eram artificiais e a iniciativa individual inibida.

O sucesso empresarial era medido não pelo mérito da competência, mas pela proximidade dos governantes.

Sonhava poder um dia estar à frente de uma empresa que fosse competitiva em um mercado aberto, vencedora em um jogo sem cartas marcadas e sem proteções além das legais.

Qual a razão da dificuldade do Brasil de realizar seu destino de “país do futuro”? Será porque o povo brasileiro não é afeito ao trabalho, ou são os governantes os responsáveis pelo nosso atraso?

Essa pergunta foi formulada por um amigo alemão, que vivera muito tempo no Brasil.

Era maio de 1980. Eu tinha 23 anos, recém-completados. Estava em Hamburgo, Alemanha, em minha primeira viagem internacional a negócios, junto com um colega bem mais senior, que respondeu convictamente que a raiz do nosso problema era o fato de a maioria dos brasileiros carecer da ética do trabalho.

Eu pensava diferente. Argumentei que o brasileiro sobrevivia da mão para a boca, acossado pela inflação, pela falta de educação e pela miséria.

Apesar disso era supreendentemente pacífico e tolerante, alegre, confiante no futuro.

Achava que cabia à minoria privilegiada que controlava os recursos políticos e econômicos e que teve acesso a uma educação de qualidade, a iniciativa de formular políticas e promover ações para melhorar as condições da sociedade como um todo.

A discussão não seguiu adiante, mas aquele diálogo me marcou profundamente.

Pela primeira vez dei-me conta da importante responsabilidade de pertencer a uma elite. E passei a refletir qual seria meu papel na sociedade.

Minha geração viveu sua adolescência sob um regime ditatorial, com precário preparo para o debate político, que criticava a censura, o autoritarismo e a falta de liberdades civis.

Grande parcela da juventude, apesar de se opor à ditadura e desejar a volta da democracia, encantava-se com outros gêneros totalitários, idolatrando Che Guevara, Fidel Castro e meu já conhecido Mao.

Como podem pessoas que admiram tiranias supressoras da liberdade e da alternância de poder se denominarem democratas?

O Brasil e o mundo estavam mudando. E o empresariado brasileiro, arcaico, subserviente, coautor do
subdesenvolvimento, estava despreparado para competir na nova ordem, cujos mantras eram abertura comercial e globalização.

Ao mesmo tempo, era órfão de uma estratégia para se contrapor à primazia dos movimentos populares e sindicais que se organizavam e se fortaleciam.

Habituado a tirar proveito de conveniências, o empresariado carecia de convicções que harmonizassem as ideias de capitalismo de mercado e livre iniciativa no âmbito da economia, com valores democráticos e republicanos no campo político e social.

Para se alcançar desenvolvimento social, maturidade política e progresso econômico, é mister existir um modelo de governança sustentado em instituições inclusivas, sólidas e perenes.

A construção de instituições sociais é fruto da concertação entre as elites da sociedade — elites políticas, intelectuais, sindicais, empresariais, artísticas, comunitárias.

Assim, quanto mais bem preparadas essas elites, mais consistentes e duradouras serão as instituições.

Precisávamos encontrar razões e respostas a estas inquietações.

Os editoriais da revista Visão, do Jornal do Brasil e Estadão, os livros de pensadores da Escola Austríaca editados pelo Instituto Liberal, a leitura de Roberto Campos, somados às ideias dos economistas da Universidade de Chicago trazidas pelo meu irmão que lá estudou, foram aos poucos me fornecendo instrumental para entender que por meio da doutrina liberal-democrática podemos promover o progresso e a justiça.

Em 1984, quando derretia o modelo capitalista de Estado e a abertura política era iminente, tomei a iniciativa de convidar um grupo de empresários da minha geração para propor uma discussão sobre nosso papel nesse novo contexto de Brasil.

Deste debate surgiu o IEE cuja missão era criar uma nova elite empresarial que iria pautar sua atuação na defesa da liberdade em todas suas dimensões.

Para tanto era necessário primeiro mudar a mentalidade e renovar o discurso das tradicionais lideranças empresariais.

Se não fôssemos capazes de convencer nossos pares, que dirá o restante da sociedade?

Os primeiros anos de IEE foram marcados pelo enfrentamento do ceticismo e da resistência dos empresários. Nos acusavam de radicais irresponsáveis por defendermos a privatização dos transportes, comunicações, energia. Achavam um assombro sermos a favor do funcionamento do comércio nos domingos e da presença de multinacionais em todos os setores da economia.

Não conseguiam conceber empresários pregando a abertura dos mercados, a eliminação de subsídios e a promoção da competição: afinal, quanto menos concorrentes melhor.

Não entendiam como podíamos ser contra o populista Plano Cruzado, que destruiu a economia mas assegurou a eleição dos políticos que nos legaram a “Constituição cidadã”.

No IEE formei a base conceitual que me possibilitou anos mais tarde assumir a liderança dos negócios de minha família, e transformá-los numa organização que prospera nos mercados mais competitivos do mundo, e que tem como principal força uma cultura que reúne os valores que gostaria de ver adotados em nosso Brasil, como a confiança, o respeito ao indivíduo, a responsabilidade individual com imputabilidade, a transparência e o compromisso com a verdade, a subsidiariedade, e a determinação de buscar sempre o melhor para o maior número possível de pessoas.

Orgulha-me ver a ideia do IEE repercutindo além das fronteiras do Rio Grande do Sul. De encontrar aqui em BH tantos jovens com honestidade intelectual, coragem e iniciativa, que saem da sua zona de conforto para lutar por uma causa maior.

Mas por que lutar? Por idealismo?

Por saber que não estaremos bem e seguros se as pessoas em torno de nós não estiverem igualmente bem e seguras?

Ou quem sabe, para dormirmos com a consciência em paz por estarmos fazendo nossa parte?

Sim, mas antes e acima de tudo, por indignação com as injustiças ao nosso inconformismo com a manipulação da verdade para favorecer interesses escusos; repulsa à omissão das elites, de visão oportunista, de curto prazo, e dos governantes casuístas e fisiológicos que infantilizam o povo para exercer seu poder deletério; intolerância com a ética da esperteza, da improvisação e da imprevidência; gana de acabar com a corrupção e a impunidade que corroem a estima do brasileiro.

Percebi que muitas vezes não fazemos as coisas porque queremos, ou porque gostamos. Fazemos porque é preciso fazer o que nossa razão nos manda para cumprir um imperativo moral!

Como ensinou o sábio judeu Hillel:

“Se eu mesmo não sou para mim, quem será por mim?

Mas se sou somente para mim, o que sou?

E se não agora, quando?”

Muito obrigado!

William Ling
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