Como me tornei um liberal

Aprecio muito o rótulo criado por Ayn Rand, que bem define minha posição ideológica, Radical pelo Capitalismo.

Desde a infância, vamos assentando as peças que formarão nossa visão de mundo, nosso caráter. 
Como eu costumo dizer, não poderia ser outra coisa que não liberal porque meus pais me ensinaram que não era correto bater nos coleguinhas e nem se apoderar de seus brinquedos, sem o consentimento deles.

Apenas essa lição, já seria suficiente para que eu viesse a rejeitar ideologias coletivistas que exaltam o Estado, como o fascismo ou o socialismo. Nazismo e comunismo então, nem pensar.

Tampouco, veio com o barulho e os tremores causados pelos tanques do Exército brasileiro, quando passavam em frente ao meu edifício, ao lado do Colégio Militar, com o início da Revolução de 1964, eu tinha apenas nove anos.

Tudo começou numa manhã como outra qualquer no Colégio Israelita Brasileiro.

Nos poucos minutos que durou aquela cena, Giselda modificaria a minha vida para sempre. Mesmo acostumado aos relatos sobre o Holocausto, senti naquele momento se manifestar o meu desprezo pelo uso da força, a exasperação perante o autoritarismo. Por outro lado, percebi o apego atávico que eu tinha pela liberdade e o irrefreável desejo de lutar por ela.

Minha família sofria pressão psicológica de gente próxima, ligada às forças de segurança do governo. 

A situação era tensa o que me levou a abrir um processo para esclarecer as acusações que me faziam e consequentemente, para “limpar” a minha ficha.

Conversamos longamente sobre as minhas convicções ideológicas. Ele não conseguia entender como era possível eu ser contra o governo militar e não ser um socialista. Passamos horas discutindo esse ponto, até que ele se convenceu de que não era necessário ser de “esquerda” para discordar do arbítrio de um regime de exceção. Hoje sabemos que a esquerda se encanta com tiranias. Naquele dia, me dei conta da importância de toda a minha formação. Defendi os princípios do capitalismo, como poucas vezes consegui fazer depois. Em poucos dias, depois de um julgamento sumário, fui considerado inocente de qualquer atividade subversiva na qual estivesse envolvido, recebendo então um atestado de bons antecedentes emitidos pelo órgão de repressão.

Dez anos depois, já tendo deixado a faculdade, participei de uma mesa-redonda, com William Ling, Atílio Manzoli, Mathias Renner, entre outros, promovida pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre, o qual pretendia conhecer a mentalidade dos jovens empresários da época.
William e eu dividimos a tarefa inicial de recrutamento, coube a mim convidar empresários do comércio e de serviços e ao William o pessoal da indústria e da agricultura.

Iniciamos um trabalho conjunto com o Instituto Liberal do Rio Grande do Sul, do qual também tive o prazer de ser um dos fundadores, junto com Winston Ling, irmão do William.

A motivação que tínhamos e a certeza do sucesso, me levaram a realizar o primeiro evento externo da entidade, chamado "Brasil, é possível sair da crise?". Quase 200 empresários atenderam ao evento. Houvesse mais lugares, a lotação seria maior.

O IEE causou enorme impacto no meio empresarial. Era uma iniciativa desafiadora em todos os aspectos.  

Naquela época, o Brasil e o mundo estavam em ebulição. 

Ronald Reagan e Margareth Thatcher lutavam para liberalizar a economia de seus países. 

 No Brasil, o movimento Diretas Já havia agitado o país.

Os planos econômicos e as intervenções radicais, chamadas de políticas heterodoxas, desnorteavam os empresários e perturbavam os mercados. 

A inflação tornava-se galopante e o populismo demagógico escolhia seus bodes expiatórios: os empresários, principalmente os do comércio varejista. E como lojista que eu era, mais uma vez tinha que sair a campo defendendo menos intervencionismo e mais liberdade.

A sociedade brasileira se encaminhava para a formação de uma Assembleia Constituinte. 

 A União Soviética começava a dar sinais de desmantelamento, culminando com a queda do Muro de Berlim, em 1989 e o colapso do modelo comunista.

Ao longo de todos estes anos, minha luta por liberdade foi baseada no meu senso moral, sem a devida compreensão sistematizada, apenas estimulada e construída sobre pensamentos adquiridos de leituras esparsas.

Encontrar Ayn Rand, foi como encontrar a mim mesmo, foi como esbarrar em alguém com quem o meu espírito podia falar.
Passados quase 30 anos da fundação do IEE, retornei ao Conselho Deliberativo da entidade. 

Acho que os problemas que vivemos exigem mobilização de todos os que atribuem à liberdade um valor inestimável, inegociável, intransferível.

O IEE e o Instituto Liberal iniciaram, nos idos da década de 80, uma mudança cultural que amadurece e começa a gerar frutos. Inúmeras instituições, milhares de jovens engajados e ativos nessa luta, leem e discutem idéias que não havia naquela época e que foram sendo produzidas e divulgadas ao longo do tempo.

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4 comentários

  1. Roberto, você discorre sobre os fundamentos éticos e morais da Liberdade como quem reflete há muitos anos sobre o assunto. É tudo muito amadurecido. Parabéns.

  2. Mônica, são décadas de vivência no comércio e no debate de ideias lendo, ouvindo e argumentando sem limitações.

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