Venezuela, uma carta aberta.

Presidente Dilma,
Eu sei que a senhora é amiga e aliada do Presidente Maduro da Venezuela. Sei que compartilham do mesmo gosto por hotéis de luxo, viagens oficiais que mais parecem caravanas faraônicas, discursos histriônicos, regimes ditatoriais de todas as estirpes. Sei também que o apelido de “poste” que lhe deram, serviria para ele muito bem. Afinal, ser escolhido para suceder um ícone da sua tribo não é para qualquer um. Maduro teve Hugo Chávez, a senhora teve Lula. Sei que o socialismo do Séc. XXI é um sonho que comungam, Maduro está indo às últimas consequências para transformá-lo em realidade, porém sem sucesso. Sei que este é o seu desejo também. 
Respeito quem tem sonhos. Todos temos o direito de tê-los. Diria mais, todos têm a obrigação de sonhar para definir um propósito para suas vidas. O problema acontece, presidente Dilma, quando queremos que os outros vivam os nossos sonhos. Quando queremos moldar a realidade que nos cerca, assim como a vida das pessoas que muitas vezes nem conhecemos, de acordo com aquilo que estabelecemos como propósito para nós mesmos. Isto não está certo, presidente. Seu aliado e amigo Maduro, quer que todos os venezuelanos vivam de acordo com o sonho que ele e seu finado antecessor tiveram. Nem todos acreditam neste sonho, por sinal, a maioria acha que é um pesadelo. Principalmente, os jovens venezuelanos acham que viver sem liberdade, sem poder usufruir do fruto do seu esforço, é um pesadelo. Seu aliado Maduro, os está matando nas ruas da Venezuela, presidente. Ele deveria, como chefe do governo, apenas protegê-los contra a violência. 
Presidente Dilma, a senhora sempre nos vendeu a idéia de que pegou em armas para lutar contra uma ditadura. Não me cabe agora questionar isso. Me cabe apenas apontar que, aqui e agora, ao lado de nossa fronteira Norte, há um ditador, eleito pelo povo, eu sei, mas ele é um ditador, como Hitler, que também foi eleito pelo povo. Ele está tentando impor à força, aos jovens da Venezuela, um sonho com o qual eles não compartilham. Para eles é um pesadelo. E por isso estão sendo mortos a tiros. Mal sabemos direito o que ocorre por lá pois há censura, mas o que sabemos nos horroriza. A senhora disse que lutou contra a ditadura na juventude. Os jovens venezuelanos estão lutando contra a ditadura, presidente. Me parece que chegou a hora de demonstrar que a sua luta era legítima. Há uma luta a ser travada aqui e agora, a senhora é chefe do governo do Brasil, se considera a guia dos destinos da América do Sul, pela pujança que temos. É este o destino que a senhora pretende para nós? Que nossos jovens sejam obrigados a sonhar pesadelos ou morrer a tiros, disparados por seu próprio governo, por terem um propósito de vida próprio, pessoal, inalienável e intransferível?
Presidente Dilma, cá entre nós. Temos divergências intransponíveis de pensamento. No entanto, tenho certeza que concordamos que governos não foram feitos para matar o futuro do seu país.
Demande que o presidente Maduro pare, brincar de divindade já foi longe demais. Demostre também, que nosso futuro não perecerá.
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1 comentário

  1. Óimo texto, Roberto! Porém, esperar algo similar da presidente é algo impossível, infelizmente… Na verdade, acredito que isso terá um fim positivo e torço para que ela perca ainda mais capital político com a sua (não) atitude.

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