A epidemia do medo


Sábado à tarde, depois que a chuva passara, fazia minha caminhada pela redondeza, curtindo as ruas calmas, arborizadas, e esburacadas do bairro Petrópolis.

Nesse bairro de classe média, aquela tão odiada por ideólogos do partido que nos governa, ainda se pode ver a Porto Alegre de outros tempos, bucólica e tranquila, mas nem por isso mais segura.

Hoje em dia, não há casa, sobrado ou prédio, que não exponha todo tipo de aparato que transforma lares e escritórios em fortalezas high tech, com gradis para afastar visitas indesejáveis, câmeras com acesso remoto para flagrar gente intrometida, fios elétricos para fritar intrusos, ou o bom e velho cão nada amigo, pronto para mostrar os dentes com desconfiança compreensível.

Pois nesse cenário, um tanto decadente e depressivo, como de resto se transformou boa parte de nossa cidade, lá ia eu, com os fones de ouvido plugados, escutando, via internet, minha rádio espanhola preferida.

Abro um parênteses, para dizer que o sinal da operadora era perfeito e, se não fosse por uma chamada telefônica que precisei fazer, teria seguido meu exercício, ouvindo música sem interrupção.

Terminada a ligação, parei no meio da calçada para reconectar minha rádio, o que não deve ter demorado mais do que uns três minutos, tempo suficiente para perceber que o dono da casa, ou melhor, da fortaleza perante a qual eu estava parado, abrira a porta e, me encarando com cara fechada por entre as grades e com os braços cruzados em posição defensiva sob a soleira, começou um diálogo com alguém dentro da residência, dizendo que iria chamar a polícia, caso a pessoa que estava na calçada, ou seja, eu, não fosse embora de onde estava imediatamente.

Interessante que o cidadão, com algum resquício de dúvida, não se dirigia a mim, mas a quem estava com ele, parecia ser sua esposa, que aflita tentava acalmá-lo.

Pensei, será que sou eu que estou a incomodá-lo?

Eu estava trajado como um atleta de fim-de-semana, calção, camiseta, casaco, smartphone na mão e fones nos ouvidos, era um legítimo estereótipo.

Será que eu estava invadindo uma espécie de milhas náuticas soberana daquela propriedade? Óbvio que não.

O que estava acontecendo ali, naquele momento, comigo, era uma demonstração do que nos restou como brasileiros de classe média ou não, a manifestação do medo, neurastenicamente assimilado, em consequência do terror difundido para nos intimidar. Não me refiro ao medo recrutado, como sinal de alerta nas situações de perigo, mas ao medo que habita, o medo presente, o medo doentiamente crônico, que transforma em perigo eminente nossa própria existência.

Me pareceu risível a tentativa histriônica daquele homem, aparentemente de bem, de mostrar que estaria disposto a defender e garantir sua propriedade com eloquente coragem e que, se eu não arredasse o pé dali, buscaria reforços, como se projetasse uma fictícia cavalaria, que viria com toques de corneta, proteger seu forte dos apaches ou dos comanches.

Nestes dias de virulenta supressão dos direitos individuais, tememos, não sem motivo, o governo que nos taxa, tutela e ameaça com multas e prisão se faltarmos com obrigações impostas. Tememos os bandidos escancarados que invadem nossa privacidade e tomam nossas propriedades, quando não nossa vida, impunemente, sem transtornos e sem remorsos. Assustadoramente, tememos qualquer um, até inofensivos passantes que querem fazer sua caminhada tranquila pelos bucólicos e fortificados bairros da cidade.

Nos tornamos habitantes urbanos com medo, submetidos a um servilismo clássico, respeitamos leis pervertidas que nos cerceiam, nos consomem, nos castram. Pouco nos resta de autoestima e capacidade de reação contra nossos inimigos reais. Nos falta discernimento, força política e capacidade econômica para defender o que é nosso. Não há como lutar sozinho e tampouco haverá reforços. Impotentes para nos rebelarmos contra os verdadeiros bandidos, exercitamos nossa coragem e indignação contra inocentes, gente como nós, contra o próximo, contra o motorista do carro ao lado que não deu passagem, contra o vizinho que faz um pouco de barulho, contra o garçom que não sorriu como queríamos, contra a caixa do supermercado que errou no troco, contra o idoso que furou a fila, ou contra qualquer um que aparecer na nossa frente, mesmo que esteja passando na rua, inocentemente, quieto, ajustando seu smartphone para seguir caminhando a procurar uma Porto Alegre que não existe mais.

A propósito, lhes pergunto agora, qual o meliante que ainda se assusta com ameaças de que chamarão a polícia? Bem, como eu, acho que vocês já sabem a resposta. Esse pessoal parece que nunca brincou de forte apache e nem sabe quem eram os comanches.

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